Ele sentira sua presença - Parte 01

Posted by Gio Gomes in ,

"A batedora saiu das sombras da grandiosa oiticica"
As pessoas falam tanto de amor que cansa. Talvez porque o que se diz deixa a impressão que existe, escondido sob a terra ou na mais alta montanha, algum escrito que explique as regras para entrar nessa “sociedade”. E me pergunto sempre quem está preparado para amar. Eu estou? Acho que ninguém sabe ao certo. Acredito no sentimento sim, mas gosto de imaginar um tipo de amor que se manifesta em detalhes ínfimos, tornando-os tão grandes quanto o universo ao nosso redor. Claro, nada (por mais ínfimo que seja) é por acaso e todo acontecimento é fruto de atitudes tomadas, costumes cultivados. O ponto em que queremos chegar é justamente este, algo a princípio tão particular e praticamente invisível, mas por outro lado... A pequenina alavanca para as gigantescas engrenagens da vida.

Havia seguido silenciosamente aqueles quatro, e até mesmo a habilidosa batedora chamada Alish era incapaz de vê-la ou sentir seu cheiro. Até que Amwe saiu pelos portões da cidade sob a montanha acompanhado pelo ancião Laurenber, e cumprimentou os outros três. Neste exato momento ele levantou a cabeça por alguns segundos e olhou diretamente para ela. Não... Não conseguia acreditar naquilo! Havia sido descoberta? Mais um curto espaço de tempo passou até que o montês voltasse a atenção aos companheiros de viagem, mas ela entendeu de imediato a mensagem. Todas as vezes que a visão dele a pudesse alcançar, Amwe saberia que estava ali.

E assim começou esta história esquisita, uma vigia vigiada, uma distância física que nos parece que as almas desejam encurtar. Veja bem, aquilo que conecta estes dois jovens não determinou de imediato seus futuros. Não estamos falando de destino, nem da necessidade de que exista este misterioso “sentir” em todos. E naquele instante era simplesmente impossível cogitar que eles se tornariam amantes. Afinal, o que exatamente significava esta curiosa precognição um do outro? Enfim, o que nos interessa aqui, muito antes de fins e meios é justamente o início!

É claro que a curiosidade é uma faceta interessante dos seres humanos, mas devo dizer que Amwe, o homem das montanhas, era simplesmente desprovido dela. Sentir e não ter o desejo de descobrir pode ser considerado um dom daquele povo que habita as profundezas da terra. Apesar de habilidosa em sua furtividade, nossa esperta espiã tinha a curiosidade contra si, e você já deve estar imaginando que eles logo iriam se encontrar. Sim, mas infelizmente este caminho seria um caminho de sofrimento, apesar da ilusão que criamos de que o amor envolve apenas alegria, saúde, paz ou prosperidade.

Começaram os liderados do guerreiro Thanaar (com a chegada do homem das montanhas o grupo ganhara um quinto membro) a caminhar por entre montanha e floresta, e sempre que Amwe olhava para todos os lados, a seu próprio modo calmo e sem fazer alarde, nossa vigilante sabia que de alguma forma incompreensível ele a havia percebido. E foi se acostumando aos poucos com o sexto sentido do montês, baixando a guarda e aproximando-se até que a sentisse, enganando-se quando pensava testar o alcance da percepção dele. Mas a brincadeira ingênua deu lugar à gravidade, e sua função de vigia começou a pesar no coração de forma particular e intensa. Tinham mudado de direção bruscamente em um dia, e na outra manhã a mata tornou-se em selva, expondo-os então ao perigo. Aproximavam-se da aldeia. Ela viu quando outro membro da pequena comitiva (um daqueles estranhos homens-répteis) percebeu que eles seriam emboscados, e a partir daí os semblantes antes leves mostraram o peso da preocupação, e talvez a mudança de direção tenha sido um erro, agora impossível de reparar. A viagem tornou-se lenta e repleta de mínimos cuidados. Ela conhecia o ambiente, conhecia até mesmo as pessoas ali, e infelizmente, infelizmente... Era seu mais sagrado dever envolver-se de forma decisiva nos eventos que iriam acontecer a partir daquele momento.

Filha da floresta como era, conhecia aquele lugar como poucos. Logo cairia a chuva da tarde, e os sons do céu já antecipavam essa precipitação, assim como o canto da garrincha. Ficou então em prontidão, impossível que era surpreendê-la ou a qualquer um de seu povo que habitava aquele reino de árvores ancestrais com raízes fincadas nas profundezas da terra. Viu a batedora sair das sombras de uma grandiosa oiticica, avisando-os e pedindo que depusessem as armas, quando finalmente deu-se a abordagem.

Eram todos de pele morena como ela. Todos com cabelos negros como a noite e lisos ao toque como quando se passam os dedos pela corrente de uma nascente. Encontramos então uma coincidência fantástica em nosso pequeno conto, e assim como a vida é salpicada por muitos pequenos milagres, talvez sejam estes a origem do que chamamos amor, cada um deles acontecendo na expectativa de evoluir até transformar-se, assim como lagarta em casulo, casulo em borboleta. Porque a aldeia da qual os viajantes se aproximaram (justamente aquela) era sua casa, sua origem. Ali estavam seus pais, seus familiares e muitos entre os quais havia aprendido tudo sobre a vida, o mundo.

Não houve flecha, os emboscados depuseram suas armas de forma pacífica. E eis que ela abriu um sorriso amargo. Sabia que seus iguais não toleravam a presença de estranhos, mas sofreu por outro motivo: A interferência dos estrangeiros é mácula, a ferida que não fecha estava aberta bem no coração da selva. E caminhou para casa a fim de encontrar os prisioneiros.

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1 comentários

Esperando pela parte 02...

27 de agosto de 2010 10:22

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