O conto dos exércitos - FINAL

Posted by Gio Gomes in

-Então devia saber ao menos que essas criaturas são uma ameaça ao reino, e que a espada, tão importante para você, pode sucumbir diante deles.

-Vamos com calma bela amazona. Deixe-me corrigir alguns de seus pensamentos sobre mim. Respondeu Lathanaur, achando graça na impetuosidade da moça, que já não conseguia concentrar-se na refeição à mesa, comendo muito pouco enquanto ele já provava da sobremesa.

-Gosto de pensar que sou nobre, e pode até ser que me torne um político barrigudo repleto de palavras venenosas atrás de uma mesa como essa, cheia da melhor comida. Pode ser... Mas minha devoção ao Rei? Neste ponto você errou. O Rei nada mais é do que o representante do povo. Minha devoção é ao povo.

Neste momento respirou fundo, estava sendo sincero com ela, e pareceu-lhe que tal confissão era arriscada, dita a alguém que acabara de conhecer. Não tinha mais volta. Retomou enfim seu pensamento:
-Quanto aos escravos... Em que exatamente eles diferem de mim ou de você?

-Eu e você? Perguntou a moça, novamente irritada. Veja bem, eu não ouso comparar nossa origem, bens ou até mesmo habilidades. É descortês e inapropriado! Agora, comparar-me com... Com... Vou fingir que você não disse isso, e que fiquemos amigos.

Enfim ali estava o sinal que o rapaz esperava, a mínima fraqueza, o espaço para mudar o assunto e aproximar-se da bela jovem. Fingindo certa preocupação, ele retomou o fôlego:

-Não, não... Perdoe-me Astar. Não foi minha intenção comparar-me com os seus ou desrespeitá-la. Naverdade, uma mulher tão bela como você merece todo o meu respeito. E caso não queira uma revanche, estou disposto a aceitar minha derrota, e nos encontraremos onde achar melhor para que possamos então ser amigos, como acabou de dizer.

A moça ruborizou e sumiram-lhe as palavras. Não era esperado, e não soube o que fazer.

-À revanche, Meia noite! Erguei-se da mesa tomada por uma timidez incompreensível, e quando estava a sair do salão olhou uma vez para trás, lá estava o espantado Lathanaur observando-a. E desde aquele dia acreditou que seu último olhar foi pela refeição deixada pela metade.

Hoje, enquanto encarava o semblante maduro do Homem Lathanaur, a capitã encontrava o mesmo jovem de anos atrás, talvez alguns cabelos brancos, mas a mesma pessoa. Porém ela era incapaz de compreender suas atitudes da mesma forma que não compreendeu suas palavras na juventude.
-Faça-o então por suas convicções! Não luta pelo povo?

-Capitã... Sabemos o que acontecerá caso eu me submeta à força que você acredita ter. E isso não acontecerá.

-Então isso quer dizer guerra. Ela respondeu, já irritada.

Lathanaur meneou a cabeça negativamente, mas não foi um gesto que confirmasse o embate entre os exércitos sitiante e sitiado. Estava insatisfeito com o rumo da tentativa diplomática. Quando finalmente ia responder, ouviram-se novos clarins, e desceu aos campos terceiro exército, trazendo a bandeira real: O escudo dourado sobre céu azul. Colocaram-se fileira após fileira diante das forças de Astar, em posição de claro confronto.

Mais alguns minutos e chegou então à presença de Astar, Lathanaur e suas comitivas mais um capitão, e em suas mãos trazia uma carta, lacrada com o selo real. Fez-se pesado silêncio. Ele abriu a carta lentamente e ergueu os olhos da missiva na direção da mulher, começando a leitura.

-Capitã Astar, em nome do Rei, a senhora está presa por desobediência. Devo escoltá-la até a presença do concílio por ter se precipitado e trazido seu exército até aqui. O Rei e o concílio assinaram liberdade aos escravos, porém há assuntos a tratar com o General Lathanaur, que ele seja informado em separado do restante desta comunicação.

Não é preciso perder uma batalha para encontrar a derrota, não é preciso guerra para que se encontre solução. Astar desceu do cavalo e suas mãos amarradas atrás das costas. Apesar do triunfo total de nosso “não-guerreiro” o sentimento não era de vitória. A verdade é que Lathanaur lamentava o destino da mulher que tanto admirava, e talvez uma batalha sangrenta lhe poupasse o sofrimento de vê-la envergonhada daquela forma. Eram rivais, mas havia outro sentimento ali, que nenhum deles sabia explicar. Naquela noite, anos atrás, ela não apareceu para o duelo marcado. Não fugia da batalha, mas fugiu de seu sentimento que poderia até estar distante, mas naquela época floresceu. Antes de ser levada olhou uma última vez para trás, sua guerra pela metade, a de Lathanaur completa. Naquele dia pais de família retornaram a seus lares sem nenhum ferimento. A cidade saudou o retorno de seu general e de seu messias com nova festa.

Deixando as muralhas ela agradeceu aos deuses por não enfrentá-lo outra vez.

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