A Sabedoria - Parte 03

Posted by Gio Gomes in


Quando caiu inerte na poeira do deserto, não houve nenhum evento cósmico que lamentasse a morte de Tzaark. Não havia na tradição de seu povo, arrancado de suas terras e feito escravo no reino de Thanaar, um ressurgir glorioso para aquele que cai em batalha. Pairou ali, por força de uma tradição ancestral, a necessidade de que a morte do tombado fosse vingada. O príncipe compreendeu o que devia fazer, e assim como acompanhara a enigmática Alish para dentro da tormenta, aceitou a tarefa que o respeito por seu amigo lhe incumbiu. Desembainhou a espada e caminhou até o corpo que jazia agora estendido no chão. Segurando com uma mão o cabo, apoiou-se com a ponta da arma no chão para acompanhar um último suspiro. Sentiu o vento seco em sua pele, o suor escorrendo, o cansaço de um dia caminhando pelo deserto escaldante. A voz fria de sua inimiga atingiu seus ouvidos como um golpe:

-Morreu seu salvador. E agora, o que você vai fazer?

Meresh estava ressentido com a queda do estrangeiro, pois sendo um habitante do deserto, sabia valorizar a mínima centelha de vida. Não desejava sangue ou luta, ansiava pela paz, mas o escárnio de Astar acendeu nele uma ira que há muito o peregrino não sentia. Tal sentimento foi subitamente substituído pela culpa quando viu a espada de Thanaar riscar a terra, de baixo para cima, veloz como um raio. Astar saltou para trás, esquiva, e com os olhos fixos nos do adversário esperou. Ela procurou revidar, mas não havia brechas na defesa do príncipe. Repetiram movimentos por algum tempo, vez por outra um deles recuava. Assolado por seus próprios conflitos, o peregrino observava cansaço, ódio e sofrimento no duelo diante de si. Tudo isto era mais duro do que um simples confronto com a terrível Astar. O lidar com a morte, suas conseqüências e com as responsabilidades que por lealdade nós assumimos diante daqueles que amamos e respeitamos.

Então ocorreu ao príncipe, enquanto sentia o calor do sol intenso e o peso da espada depois de minutos e minutos de franco combate, que algumas lutas duram toda a eternidade, algumas lutas simplesmente não encontram seu termo, não tem fim. Claro, tais palavras não eram suas e sim de Laurenber, o homem de idade que o acompanhava desde o início de sua viagem. E enfim chegamos ao último companheiro de Thanaar, que ironicamente é o primeiro. Meresh tinha conversado bastante com aquele, e a voz cansada de Laurenber trazia a sonoridade e o vigor das palavras de um homem sonhador distante de sua terra a mais tempo do que poderia contar, mas que possuía em seu espírito a certeza do retorno. O peregrino via claramente que aquele velho de barbas grisalhas não pertencia ao deserto, e sim a algum lugar onde se podia sentir o cheiro salgado da maresia, onde se podia ver o imenso mar. Aquele era um grande conselheiro, um homem capaz de ensinar ao guerreiro o momento exato de abandonar a espada. E foi justamente isso que Thanaar fez, pois ouviu-se o som do metal pesado contra o chão arenoso, e Astar voou em sua direção com um grito, os olhos sedentos de sangue. E pairava a sensação de vazio, pois alguém importante não estava mais ali.

Tropeçou a poderosa Astar, e sua arma voou sem direção para longe do oponente. Por mais que tentasse, não recuperou o equilíbrio, caindo adiante sobre a lança de quem havia assassinado, e seu lado foi mortalmente perfurado. Thanaar pegou a espada da guerreira, e a devolveu, atravessando a arma no corpo da inimiga, consumando a vingança operada pelo próprio destino, que respeitou a tradição do povo guerreiro de Tzaark quando a lança do guerreiro tornou-se veículo da morte de sua assassina. Os olhos da poderosa Astar se apagaram junto com seu ódio, e depois de uma respiração profunda e amarga, o príncipe olhou ao redor para perceber que todos os aliados dela tinham sido abatidos. Alish... Limpava o sangue de sua adaga, tendo nos olhos apenas a indiferença que costumava carregar.

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